Biografias Indígenas


É possível falar em biografias indígenas?


Coordenação
Mariana da Costa Aguiar Petroni

Bolsista/s


Apresentação:
Este projeto procura, através da etnografia do filme Serras da Desordem (2006) dirigido por Andrea Tonacci, discutir a possibilidade ou não da produção de biografias indígenas. Se as experiências narrativas desse autor encontram-se com a etnografia ao marcar para a antropologia a experiência da alteridade, o nexo entre a narrativa e as questões colocadas sobre a escrita destacam a importância de se compreender as construções com as quais operam os agentes em seu campo semântico próprio. Assim, ao compreender a produção narrativa desse cineasta podemos trazer questões pertinentes, desde outro campo de relação, para a produção de etnografias na antropologia.Busco, então, refletir sobre os desafios da “grafia” em antropologia e, como afirmam Kofes e Manica (2015), “submeter a imaginação antropológica à discussão sobre as dificuldades conceituais e práticas envolvidas no uso de narrativas biográficas e∕ou etnográficas” (2015, p.16). Por meio de perguntas tais como o que, como e para quem os filmes narram, pensar a narrativa e a maneira pela qual o que se revela e o que se oculta. Como escrever – no sentido de grafia – uma etnografia?

Biografias:
  • Discutir o papel das biografias para a antropologia;
  • Refletir sobre as particularidades da produção de biografias indígenas;
  • Revisar a literatura sobre o tema relativas às terras baixas sul- americanas;
  • Criar, a partir dos primeiros resultados, um grupo de pesquisa sobre biografias e grafia antropológica;
  • Publicar um artigo com os resultados da pesquisa.

Materiais e Métodos (Metodologia):
Para Marilyn Stratern (2014) é no momento etnográfico, ou na atividade de escrita constante e recriação imaginativa que provienem alguns efeitos do trabalho de campo. Nos limites da antropologia, proponho fazer do ver, do assistir ao documentário Serras da Desordem uma experiência de campo. Ver o filme, levantar questões, formular perguntas antropológicas, num exercício também de escrita. Voltando, então, à questão da grafia, grafias de uma vida, etnografias. Assistir a Serras da Desordem como “ser afetado” por uma experiência social outra é também uma maneira de abordar o início deste projeto. Assim, questionar o que é être affecté para Jeanne Favreet-Saada é ainda este começo.Feito este exercício introdutório, partirei para as leituras, especialmente sobre as terras baixas sul-americanas. O traçado deste caminho, à luz do filme em questão, imagina afetos e violências, construções de narrativas sobre alteridades e relações de poder. Afinal, trata-se, pode-se dizer, no filme, de um indígena frente, em fuga das máquinas de sujeição do Estado. Ganha destaque na bibliografia, desse modo, o trabalho organizado por Clarice Cohn e João Pacheco de Oliveira, “Belo Monte e A Questão Indígena”, bem como a publicação de “’Dono é quem desmata’ – conexões entre grilagem e desmatamento no sudoeste paraense”, de Maurício Torres, Juan Doblas e Daniela Alarcon. É nesse sentido ainda que discutiremos o trabalho de Francisco Apurinã, “Nos caminhos da BR-364”.Voltando à concepção de Marilyn Strathern, com momento etnográfico, depois de avançar estas leituras, a proposta é dedicar-se novamente às questões formuladas inicialmente ao assistir a Serras da Desordem. Seria como recordar o efeito inicial de ver o filme, quais perguntas foram elaboradas. Com o andamento das leituras, então, colocadas essas questões como que em reserva, quais os desdobramentos se apresentariam? Farei, desse modo, um contraste entre aquilo que a experiência de campo inicialmente possibilita, e, claro, em relação às expectativas que foram construídas teoricamente. Assim, configura-se uma pesquisa como “imersão”, aprofundando questões de um campo com o avanço das leituras, ou como o momento etnográfico, que seria capaz de revelar, imaginamos, as dimensões de imprevisibilidade do campo de pesquisa.


Por fim, atentarei para uma dimensão do filme e também das leituras propostas ao longo do semestre: em que medida, como é possível falar em biografias indígenas?